A conquista da (in)felicidadeNormalmente, a palavra Felicidade faz-me trautear
a música, com o mesmo título, de Vinicius e Jobim, cujo refrão é o incontornável “
Tristeza não tem fim, felicidade sim…”. A verdade é que justifico-me melhor com o conceito de Bem-estar do que com o de Felicidade, ainda que haja quem defenda que são a mesma coisa…
Vem isto a propósito do tema de capa que a revista Única, do
Expresso, escolheu para este fim-de-semana: “
A escolha da felicidade” e com a entrevista a
Jonathan Haidt, especialista na matéria, autor do “
The Happiness Hypothesis”. Segundo o Professor de Psicologia da Universidade de Virgínia
a Felicidade pode ser determinada pela fórmula F (felicidade)= g(genética)+a(ambiente social)+v(actividades voluntárias), sendo que a investigação indica que a felicidade é menos sensível aos factores ambientais do que aos biológicos. Interessante, sem dúvida. Contudo,
existem acções específicas para melhorar a nossa condição mental:
os antidepressivos,
a meditação, parece que o homem mais feliz do mundo é o monge budista
Mathieu Ricard autor de “
Happiness”, e
a terapia cognitiva. Há alguns anos, ao ler, pela primeira vez, “
A conquista da Felicidade” de
Bertrand Russel, sublinhei as seguintes passagens no capítulo “
O Homem Feliz”: “
Há coisas indispensáveis à felicidade da maioria dos homens, mas são coisas simples: a alimentação, a casa, a saúde, o amor, o êxito no trabalho, o respeito das pessoas que nos rodeiam. Para alguns, ter filhos é também essencial. Quando tais coisas faltam, somente o homem excepcional é capaz de alcançar a felicidade (…) quando as circunstâncias exteriores não forem manifestamente desfavoráveis, o homem deve ser capaz de alcançar a felicidade, se as suas paixões e interesses forem dirigidos para o mundo exterior, em vez de se concentrarem em si próprio”, finalmente, “
Toda a infelicidade resulta de uma desintegração ou falta de integração; há desintegração no Eu por falta de coordenação entre o consciente e o inconsciente; há falta de integração entre o Eu e a sociedade quando os dois não estão unidos pela força dos interesses e afeições objectivos. O homem feliz é aquele que não sofre de nenhuma destas faltas de unidade, cuja personalidade não está dividida contra si próprio nem em conflito com o mundo. Um tal homem sente-se cidadão do universo, goza livremente o espectáculo que lhe oferece e as alegrias que lhe permite, sem se perturbar com o pensamento da morte…”.

Quando, no ano passado, foi divulgado o estudo da Universidade de Leicester, com o
mapa mundi dos níveis de felicidade,
Portugal estava no 92.º lugar e a Dinamarca em primeiro. Para a New Economics Foundation, no seu
Happy Planet Index,
Portugal aparece no 136.º lugar. Na altura ninguém se admirou como não é de admirar que, mais recentemente, um
estudo da Universidade de Cambridge, sobre a UE dos 15,
Portugal surja em 14.º lugar. Para não variar são os dinamarqueses que lideram a tabela, e que, também para não variar, elegem
um dos factores-chave para a sua felicidade o tempo livre e a forma como o usam para passar em família e com os amigos. É assim que talvez devesse assumir maior preocupação a
notícia do Público, de ontem, que anuncia que os portugueses têm cada vez menos filhos e, entre a maioria daqueles que os têm, não faz parte das prioridades poder ter mais tempo para lhes dedicar. Mais individualistas, mais autocentrados: é uma tendência que já não é nova, mas que se tem vindo a consolidar.
83,7 por cento da população portuguesa empregada, com pelo menos um filho ou dependente a quem prestem cuidados, diz que não deseja alterar a sua vida profissional para poder dedicar mais tempo a cuidar deles. Nos estudos realizados por organismos da União Europeia ressalta o contrário, com
a maioria dos europeus a manifestar-se insatisfeito no que respeita à conciliação entre trabalho e família. Esta insatisfação foi mesmo apresentada como uma espécie de "moeda comum" europeia. Por cá parece que ninguém se incomoda, vamos continuar a divergir e eu vou continuar a trautear, a que ameaça ser a mais portuguesa das canções brasileiras: “
Tristeza não tem fim, felicidade sim…”