Diário Insular – Nos últimos anos, Angra tentou colocar-se no xadrez regional como capital da cultura. Foram criadas várias infra-estruturas no concelho para esse fim, mas, nos últimos tempos, a abertura de dois espaços culturais em Ponta Delgada parece ameaçar esse lugar. Como será possível consolidar esse posicionamento – com evidentes benefícios para o turismo – contrariando a tendência centralizadora de São Miguel?
José Pedro Cardoso – A nossa grande diferença em relação a Ponta Delgada é que enquanto lá se compra por catálogo, aqui não só trazemos eventos como criamos e construímos cultura. Fazemo-lo, primeiro, para nosso proveito e, segundo, entrando em parcerias com outros. Ou seja, quando, por exemplo, fazemos um Festival de Teatro, fazemo-lo com a convicção de que temos de dar espaço a quem cria dentro de portas. Isso é fundamental. Isto é, criamos contando com o nosso potencial interno e em parceria com o exterior, chamando nosso ao resultado final. As Sanjoaninas são outro exemplo dessa forma de fazer: 80 por cento da festa é feita com a prata da casa, sendo a restante parte oriunda do exterior, que vem enriquecer a nossa produção. No fundo, não nos limitamos a comprar, atravemo-nos a criar e a construir.
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DI – Mas Angra perdeu ou não peso em relação a Ponta Delgada?
JPC – Acho que não. O poder de uma terra sobre outra expressa em coisas muito simples. Por exemplo, a cidade de Ponta Delgada, para aparecer nos meios de comunicação social, teve de copiar o que Angra fez. Copiar o que está bem feito não é pecado. Plagiar e transformar como se fosse uma bandeira própria não é crime punível por lei, mas desagrada-me ver. Sinto que esta cidade tem sido plagiada e que o reconhecimento recai sobre quem plagia e não sobre que cria. Mas Angra continua a ser uma cidade e um concelho onde as pessoas pensam mais, onde há maior troca de informação e de experiências. Isso permite que esta ilha seja mais rica, mais viva. Por tudo isso, julgo que a Terceira continua a dar cartas na Região em termos de saber dizer e de saber fazer.
(E quem fala assim não é gago...é terceirense!)