Choque de Gerações
(o prometido é devido aqui vai no meio de uma febril e arreliadora gripe)
A ideia, mais do que o título, pareceu-me interessante. Ao chamar a terreiro a nova geração açoriana para «botar palavra», adivinhavam-se novas ideias, em novas cabeças, e a lufada de ar fresco que nos trariam as novas caras.
Eis senão que:
Do ponto de vista da substância, e do que era a minha expectativa, têm falado muito pouco dos Açores ou da dimensão que alguns dos problemas abordados têm na Região. É verdade que podemos ser acusados de «umbiguismo» mas não será também verdade que uma das grandes lacunas da nossa sociedade civil é que não nos pensamos ou discutimos? E não se deveria argumentar que já existem outros espaços na rtp-a para o fazerem, bem sabemos que os há , mas são pobres e com os do costume, e a mais valia do CG é precisamente não ser feito com os do costume. Cosmopolitismo não será falar dos Açores sem complexos nem engagements?
A abordagem, num só programa, de assuntos nacionais, internacionais e regionais, parece-me um passo maior do que as pernas, talvez influenciado pela formação jornalística do sr. Neto. Como tal, fala-se muito mas diz-se pouco e sempre a correr.
Por outro lado trazer ao programa, além do painel residente que vai rodando (uma ideia feliz) pessoas que se me afiguram de valor e não fazê-las falar ou debater as perspectivas que as suas actividades terão na Região é também fugir ao essencial, já lá estiveram, que me lembre, arquitectos, juízes, poetisas, jornalistas, desportistas, fotógrafos, enfim uma miríade que «apenas» serviu (não por desprimor dos convidados) para dar um ar...envernizadamente cosmopolita. Não seria melhor para o programa chamar essa personagem à mesa, trazendo ela temas para debate, a área que domina com uma ligação à região e procurando lançar ideias e o seu ódio de estimação? E depois fazer uma segunda parte onde poderia ser abordado um tema da actualidade fosse nacional, regional ou internacional?
A ideia do ódio de estimação é inovadora mas apresenta-se desgarrada do programa. Surge interrompendo raciocínios e debates funcionando apenas como separador e não reintroduzindo discussão. A ideia de o limitar a ódios de uma só pessoa parece-me «pior emenda que o soneto».
Por outro lado, o programa perde bastante pelos seus
problemas formais, melhorados com a saída do espaço do restaurante. O facto de apresentar um figura fora do circulo central de debate, que repetidas vezes é chamada à imagem enquanto os restantes discorrem e debatem prejudica a ligação com o espectador. E ajuda à ideia de que não há complementaridade entre as duas vertentes do programa. Aliás serve também para interromper o programa para as apresentações e conversa de circunstância, muitas vezes afastada do que até então se disse. Propugna-se que esse convidado seja integrado na mesa.
Finalmente, as três áreas de discussão obrigam a uma grande dispersão e normalmente o fio condutor é cortado, ou pelo próprio sr. Neto, na ânsia que seguir as suas notas ou introduzir novos dados, ou pelo formato do programa com a apresentação do convidado ou do ódio de estimação.
Não posso dizer que não gosto do projecto, acho que poderia ser melhorado até porque aquela coisa do cosmopolitismo a tanto obriga. Mas quem sou eu…se gostam assim pois continuem, no fundo continuarei a vê-lo, mais ou menos, atentamente, nem que seja para depois poder comentar no
Foguetabraze.
Isto ficou grande…tenham paciência!