terça-feira, maio 16

CHÁ QUENTE #187

...
Pública - Parece haver uma espécie de fatalismo do insucesso de Portugal…os portugueses parecem estabelecer sempre esta diferença: uma coisa é a minha vida, o meu trabalho, o que produzo; outra coisa é o país. Como se o país fosse uma espécie de entidade abstracta, culpada de tudo, uma corja.
António Hespanha – Bem, os portugueses têm razão para pensar isso.
P. – Não é uma desresponsabilização?
A.H. – Não, não é. Ou antes: é – porque isso é mesmo assim. Este país é uma porcaria para a maior parte dos portugueses e é um país óptimo para uma pequena parte. E os portugueses sabem isso.
P. – Faz sentido a separação: eu faço o meu, o país é que não funciona?
A.H. – Faz.
P. – O país não é cada um de nós?
A.H. – Não. A capacidade de cada um mudar o país é mínima. O que nos resta é fazer o melhor pelo país, no nosso canto, porque quanto à vida colectiva não se consegue fazer nada. O país vive nesta situação. A maior parte acha, e tem razões para achar, que o país é uma porcaria, porque é o mais pobre da Europa, o mais injusto – onde os ricos são mais ricos e os pobres são mas pobres -, e é dos países onde, por razões não só económicas mas até culturais, a maioria tem menos poder de modificar as coisas.
P. - Voltamos ao princípio. Historicamente, como é que chegamos aqui?
A.H. – Às vezes a História é muito curta. Tenho-me dedicado ultimamente ao século XIX, e olho para o que se passava na segunda metade e a situação era exactamente a mesma, no sentido em que havia uma pequena elite, que governava o país, com um umbiguismo, um egoísmo enormes, falando com ela própria, e depois havia a grande massa, que não governava, nem ninguém esperava que governasse e que, ela própria, já tinha desistido. São os tais poveiros, segundo Oliveira Martins, a quem se pede tudo – os impostos, etc – mas não se dá nada, e que não contam para nada, só em dia de eleições.
Hoje, do ponto de vista dos poveiros, ou seja, da generalidade das pessoas, passa-se exactamente o mesmo: não tenho esperança nenhuma de mudar o país. O que quero é aquilo que depende de mim, que a minha actividade como professor seja do melhor. Mais do que isso … creio que não posso, que não tenho força, como a maior parte não tem.
Portanto, temos um país com a sociedade mais pobre da Europa, muitíssimo injusta e impotente. E porque é que isto não rebenta? Teoricamente é uma situação muito parecida com a da América do Sul, onde há uma tendência proto-revolucionária. Porque é que essa tendência não se passa cá? Primeiro, porque – é o discurso oficial – estamos no primeiro mundo e essas coisas aqui já não se fazem. Segundo, porque se criou uma certa mitologia de que todos compartilham de um mundo em que o sucesso e possível. Portugal é o país em que há mais jogadores no Euromilhões.

P. - Tivemos uma oportunidade no 25 de Abril que deu…
A.H. – Deu nisto. Deu irresponsabilidade. De quem?...

P. – O problema está em cima.
A.H. – Quando quem manda não sabe mandar é o que dá…

(Excertos da entrevista do Prof. António Hespanha à Pública de 14.05.2006)

NOTA: Há quem se delicie com as frases finais, «merecíamos políticos melhores» e outros que tal... Contudo, apesar de ter alguma dificuldade em discorrer sobre essa entidade difusa «povo», gostaria de sublinhar uma ideia que António Hespanha aflora: a de que o povo português, assumindo que lhe é impossível mudar o país, ainda procura dar o seu melhor na área do lhe está disponível, ou seja, na sua actividade. É aqui que discordo do Professor. O povo português não só assume a sua impossibilidade política como, também, na sua área de disponibilidade fraqueja. Isto é, não procura dar o seu melhor. A experiência exige-nos que se diga que brio profissional, competência e mérito estão fora do nosso léxico do comum. O país também falha por isto, o povo procura desenrascar-se. A questão que fica é se a mais é obrigado? Eu penso que sim …

4 comentários:

Sam disse...

Não concordo, principalmente, com uma das conclusões de António Hespanha — a de que em Portugal não existe tendência proto-revolucionária por "estarmos no primeiro mundo e essas coisas aqui já não se fazem".

O exemplo dos protestos dos estudantes franceses, há bem pouco tempo, demonstra que o desejo revolucionário não corre apenas nas veias dos países em vias de desenvolvimento, mas sim nos povos que realmente levam a sério os ideiais de liberdade, justiça e igualdade. E os portugueses, infelizmente, não o fazem...

Cumprimentos.

Anónimo disse...

Eu também penso que sim, temos esse dever, essa responsabilidade de sermos obrigados sempre a dar o tudo por tudo. E acredite Guilherme, muitos há que o fazem com competência e profissionalismo e muito trabalho árduo, em detrimento de família e bem estar físico.

Alexandre Pascoal disse...

...muda de ares...no teu caso de (ilha)...@braço!

gm disse...

Sam, penso que o Prof Hespanha quer dizer é que a quimera do ouro ou a interiorização do discurso, sublinho discurso, de que estamos no primeiro mundo anestesia qualquer impulso revolucionário que possa existir. Nisso concordo com ele, além do mais a nossa história não é fértil em revoluções populares contra o poder instalado. Obrigado pelo contributo.

MPereira, estamos em sintonia :)

Galante, eu não quero mudar o povo, gostava e que o povo se mudasse a si próprio um pouco...eheh

Alex, mudar de ilha não resolve ... talvez não dês conta mas há uma certa homogeneização comportamental entre algumas ilhas...chamam-lhe globalização eu chamo nivelar por baixo eheh ...
Abraço
(great work no TM avanti carabinieri...)